Friday, February 20, 2009

APOSTAS PARA O OSCAR 2009

MELHOR FILME



Quem vence: Quem Quer Ser um Milionário?
Faturou o maior número de prêmios da temporada pré-Oscar, seja os acadêmicos (Bafta e Globo de Ouro) ou dos sindicatos: atores, diretores, produtores e roteiristas.

Quem deveria vencer: Milk
É o mais verdadeiro dos cinco. O Curioso Caso de Benjamin Button também chega a ser melhor que Quem Quer Ser um Milionário? Se compararmos com o ano passado que tinha três obras-primas na concorrência - Onde os Fracos Não Têm Vez, Sangue Negro e Desejo e Reparação -, o ano de 2009 foi fraco para o Oscar.

As ausências sentidas: Wall-e, Gran Torino, O Lutador


MELHOR DIREÇÃO



Quem vence: Danny Boyle, por Quem Quer Ser um Milionário?
Boyle venceu o prêmio do sindicato dos diretores (DGA) e seu filme é o favorito. Mas a academia pode dar um prêmio de consolação a David Fincher, cujo filme teve o maior número de indicações.

Quem deveria vencer: Gus van Sant, por Milk
Porque consegue imprimir uma marca autoral ao filme.

As ausências sentidas: Clint Eastwood, por Gran Torino


MELHOR ATOR



Quem vence: Mickey Rourke, por O Lutador
Pela volta extraordinária de Rourke, que esteve mais em cena na mídia que os outros. Seu forte concorrente é Sean Penn, que já levou um Oscar por Sobre Meninos e Lobos.

Quem deveria vencer: Sean Penn, por Milk
Porque, diferente de Rourke, não interpreta a si mesmo.

As ausências sentidas: Clint Eastwood, por Gran Torino; Leonardo di Caprio, por Foi Apenas um Sonho; Benicio Del Toro, por Che


MELHOR ATRIZ



Quem vence: Kate Winslet, por O Leitor
Deve ganhar pela primeira vez em sua sexta indicação. Sua forte concorrente é Meryl Streep, que já levou dois Oscar por Kramer vs. Kramer e A Escolha de Sofia.

Quem deveria vencer: Meryl Streep, por Dúvida; ou Anne Hathaway, por O Casamento de Rachel.
As duas estão melhores que Kate.

As ausências sentidas: Sally Hawkins, por Simplesmente Feliz


MELHOR ATOR COADJUVANTE



Quem vence: Heath Ledger, por Batman - O Cavaleiro das Trevas
É o único prêmio já dado como certíssimo. Seja por ter ganho todos os prêmios prévios até agora e pelo peso de homenagem póstuma.

Quem deveria vencer: Heath Ledger, por Batman - O Cavaleiro das Trevas
Foi realmente uma das interpretações mais marcantes de 2008.

As ausências sentidas: Dev Patel, por Quem Quer Ser um Milionário?; Brad Pitt, por Queime Depois de Ler


MELHOR ATRIZ COADJUVANTE



Quem vence: Penélope Cruz, por Vicky Cristina Barcelona
É quase loteria, mas Cruz venceu o Bafta e outros prêmios de associações de críticos. Viola Davis também tem chances, mas é novata e aparece em menos de oito minutos no Dúvida.

Quem deveria vencer: Marisa Tomei, por O Lutador
A atuação mais comovente e verdadeira das cinco.

As ausências sentidas: Francis McDormand, por Queime Depois de Ler; Kathy Bates, por Foi Apenas um Sonho


MELHOR ROTEIRO ORIGINAL



Quem vence: Milk
Candidato a melhor filme, Milk ganhou o prêmio do sindicato dos roteiristas e tem mais chances que Wall-e.

Quem deveria vencer: Milk ou Wall-e
Os dois são ótimos.

As ausências sentidas: O Lutador e O Casamento de Rachel


MELHOR ROTEIRO ADAPTADO



Quem vence: Quem Quer Ser um Milionário?
Candidato a melhor filme, Quem Quer Ser um Milionário? também ganhou o prêmio do sindicato dos roteiristas.

Quem deveria vencer: O Curioso Caso de Benjamin Button
O filme apresenta um novo olhar sobre o conto de F. Scott Fitzgerald.

As ausências sentidas: não me recordo.


MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO



Quem vence: Wall-e
Presente nas principais listas de melhores do ano, Wall-e é o favorito. Os outros dois são visivelmente fracos.

Quem deveria vencer: Wall-e
O melhor filme de 2008.

As ausências sentidas: Valsa com Bashir.


MELHOR FILME ESTRANGEIRO



Quem vence: Valsa com Bashir
Mistura de animação com documentário, o israelense Valsa com Bashir é o favorito e já ganhou todos os prêmios prévios ao Oscar nesta categoria. Mas Entre les murs pode surpreender.

Quem deveria vencer: Valsa com Bashir
O filme é emocionante, bem realizado e deveria estar concorrendo também a melhor animação.

As ausências sentidas: A Viagem do Balão Vermelho, de Hou Hsiao-hsien; e Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes.

Wednesday, February 18, 2009

MILK - A VOZ DA IGUALDADE (Milk, de Gus Van Sant, EUA, 2008)

A validade do convencional



Em ano de fracos candidatos ao Oscar de melhor filme, Milk é, de longe, o melhor. Não é porque tem chances concretas de ganhar na categoria. Na verdade, o prêmio já é dado como certo para o grande queridinho da mídia, Quem Quer Ser um Milionário?, que já faturou os principais prêmios anteriores ao da Academia. Enquanto os holofotes estão voltados para o apelo publicitário estetizado e a sedutora roupagem de videoclipe de Quem Quer Ser um Milionário? – que, cá para nós, não passa de um Cidade de Deus melhor resolvido -, Milk apresenta elementos mais consistentes e interessantes, sem precisar fazer muitos alardes. Em vez de fingir ser inovador, Milk demonstra ser, antes de tudo, cinema.

Isto se deve ao olhar único de Gus Van Sant, um dos poucos cineastas norte-americanos contemporâneos que merecem a devida atenção. Dono de uma cinematografia singular, ele consegue transitar com facilidade entre diferentes modos de fazer cinema: começando pela mistura do experimental com a narrativa clássica nas primeiras produções – Drugstore Cowboy (1989), Garotos de Programa (1991) –; o flerte com o mainstream e o trato com atores famosos – Gênio Indomável (1997), Encontrando Forrester (2000) –; passando pelo corajoso rigor estético da refilmagem plano-a-plano de Psicose (1998); desembocando no arejamento formal de Gerry (2002), Elefante (2003), Últimos Dias (2005) e Paranoid Park (2007).

Seja com a liberdade do universo independente ou preso a um grande estúdio, Van Sant não foge do humanismo que perpassa sua obra. Mesmo cometendo alguns deslizes aqui e ali – afinal, ninguém é perfeito –, é perceptível sua atenção a personagens outsiders, que se sentem deslocados no mundo e não conseguem se adaptar às regras ou aos códigos impostos pela sociedade norte-americana. Do dependente de drogas ao psicopata, dos alunos assassinos ao pop star solitário, todos demonstram um certo estado de inadequação.

O mesmo acontece com Milk, a cinebiografia do primeiro homossexual a ser eleito para um cargo político nos Estados Unidos. Em seu último longa-metragem, Van Sant retorna a uma narrativa mais convencional: a apresentação do personagem logo no início; a sucessão dos acontecimentos de forma linear, com o recorte que vai do começo do envolvimento de Milk com a política, o auge de sua carreira e seu brusco desfecho; a relação da vida profissional com a pessoal; a voz off que guia a trama. Mas nada justifica a afirmação por parte da crítica de que é "um filme menor". Tampouco a crítica desproposital que insiste em tachá-lo de conservador por escolher Sean Penn, um heterossexual, para o papel de Harvey Milk (João Moreira Salles levou três longas páginas da revista Piauí para esbravejar isso, mas, do filme mesmo, fala muito pouco e apenas o óbvio).

São exemplos típicos de argumentos que não contribuem em nada ao debate sobre o filme. É preciso entender que ser convencional não é sinônimo de retrocesso, na medida em que Van Sant sabe muito bem conduzir seu filme de acordo com os limites que enfrenta. Ambientado nos anos 1970, a narrativa acompanha a trajetória política do nova-iorquino Harvey Milk (Sean Penn), que se tornou símbolo da luta pelos direitos civis dos homossexuais nos Estados Unidos. Aos 40 anos, larga a carreira de executivo da Wall Street e parte para São Francisco com o amante, Scott (James Franco). Ao vivenciar a repressão da polícia e o preconceito contra os homossexuais, Milk assume a tarefa de enfrentar as autoridades e proteger não só os direitos da comunidade gay, mas também das minorias. Ele ganha as eleições para supervisor distrital da cidade de São Francisco e, a partir daí, busca tanto aliados a sua causa quanto conquista inimigos, como o também supervisor Dan White (Josh Brolin).

Ao longo de todo o filme, Gus Van Sant é cuidadoso na composição das cenas, sem extrair delas um sentimentalismo excessivo. O destaque são as várias seqüências dos discursos de Milk – sérios quando dirigidos aos homossexuais e sarcásticos nos debates com os políticos, em especial com o senador John Briggs. É claro que a interpretação de Sean Penn – forte candidato ao Oscar de melhor ator – ajuda, mas todo o elenco está afinado. Vale notar também outros pontos altos: o roteiro de Dustin Lance Black, que jamais cai no panfletário, e a fotografia de Harris Savides, que equilibra a textura granulada e desfocada de algumas cenas às imagens de arquivo. Com todos esses elementos, Gus Van Sant não faz de seu filme mais um clichê do gênero. Para chegar a isso, precisa muita habilidade e ele tem de sobra. Milk é a prova de que um filme convencional pode ser bom, se feito com apuro e sensibilidade.

Cotação: *****

Friday, January 30, 2009

FOI APENAS UM SONHO (Revolutionary Road, de Sam Mendes, EUA/ING, 2008)

O lado frio da infelicidade



Com Foi Apenas um Sonho, Sam Mendes retoma o mesmo projeto de Beleza Americana (1999): fazer uma crítica ácida ao american way of life, ao estilo de vida norte-americano que vende uma promessa de bem-estar, mas não passa de puro conformismo. Inspirado no romance Revolutionary Road (1961), de Richard Yates, o filme narra a trajetória do casal Wheeler, Frank (Leonardo di Caprio) e April (Kate Winslet), que procura fugir desta apatia, mas que acaba sucubindo ao peso de constituir uma família, morar no subúrbio, manter o emprego por pura necessidade, ou seja, viver o "sonho americano" que, se a princípio parece promissor, acaba proporcionando infelicidade.

No filme de estréia de Sam Mendes como diretor de longas-metragens - Beleza Americana -, o retrato deste universo hipócrita da sociedade rica norte-americana é construído com o auxilio de uma complexa ironia tanto visual quanto verbal, a ponto de provocar certo riso constrangedor ou uma sensação de cinismo que acompanha os personagens. Em Foi Apenas um Sonho, o mesmo não acontece. Não há espaço para riso. O tom é sério, o pessimismo é generalizado, a atmosfera é depressiva, o desenvolvimento da trama é claustrofóbico, os personagens se sufocam... Há tanto peso e densidade, que muitas cenas são insuportáveis. Não é um filme fácil de assistir.

Por outro lado, algo soa falso, teatralizado em excesso, talvez impostado demais ou rigorosamente planejado. É como se Sam Mendes observasse o drama dos personagens de longe, de maneira fria, sem se envolver e permitir ao espectador que ele se envolva. Quer ser grave e extremo, mas destoa de um plano a outro. O filme marca o reencontro de Leonardo di Caprio e Kate Winslet - ganhadora do Globo de Ouro 2009 de Melhor Atriz de Drama - nos cinemas, após Titanic. Estão amadurecidos, mas nada se compara à interpretação marcante de Michael Shannon - que recebeu indicação ao Oscar 2009 de Melhor Ator Coadjuvante -, no papel de um vizinho louco que o tempo todo joga a "verdade" na cara do casal.

Foi Apenas um Sonho nem mesmo começou bem sua campanha rumo ao Oscar. Os principais prêmios anteriores - Critics Choice, associação de criticos de Nova York e Los Angeles e o National Board of Review - o ignoraram. Só levou três indicações ao Oscar 2009: a de Shannon, de figurino e de direção de arte. Resta saber se vai levar algum ou sair de mãos abanando.

Cotação: ***

Saturday, January 24, 2009

AUSTRÁLIA (Australia, de Baz Luhrmann, EUA, 2008)

Tudo e nada ao mesmo tempo



Com orçamento de 130 milhões de dólares, Baz Luhrmann faz de Austrália o exemplo perfeito de dinheiro desperdiçado. Cada vez mais Luhrmann demonstra o quanto é aquele tipo de cineasta sem qualquer projeto consistente de cinema. Ele está mais preocupado em montar espetáculo do que fazer cinema. É rebuscado e investe no excesso visual. O resultado disso é a execução de filmes forçosamente estetizados, seja no âmbito da direção de arte quanto da própria maneira como conduz a narrativa. Austrália aparenta ser bem mais contido que seus projetos anteriores - como Romeu e Julieta e Moulin Rouge -, mas não chega a fugir do padrão.

Austrália narra a história de uma aristocrata inglesa (Nicole Kidman) que, para salvar sua próspera fazenda, pede auxílio a um boiadeiro (Hugh Jackman) e a uma criança mestiça nativa da região para transportar sua criação de gado até Darwin, uma cidade da Austrália, que acaba de ser invadida pelas tropas japonesas que bombardearam Pearl Harbor. História absurda de conteúdo histórico, com roupagem épica, cheia de clichês, com personagens mal construidos e descontextualizados. Para piorar, Baz Luhrmann exagera nos movimentos de câmera (travellings e plongés, sobretudo), sem propósito algum para a própria diegese do filme. Longa enfadonho, que tem quase três horas de duração, mas parece ter bem mais. Pretencioso e previsível.

Cotação: *

Tuesday, January 13, 2009

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON (The Curious Case of Benjamin Button, de David Fincher, EUA, 2008)

Tempo e melancolia



No dia em que era decretado o fim da Primeira Guerra Mundial, Benjamin Button (Brad Pitt) nascia em “circunstâncias anormais”. Os olhos com catarata, a falha na audição, a artrite aguda e a pele enrugada indicavam que, embora recém-nascido, seu corpo já tinha 80 anos. Com a morte da mãe ainda no parto e a rejeição súbita do pai, Benjamin foi deixado na porta de um abrigo para idosos em Nova Orleans. A proprietária Queenie (Taraji P. Henson) viu naquele estranho bebê uma espécie de benção divina e decidiu criá-lo. “É o tipo de milagre que ninguém espera ver”, dizia Queenie. Milagre maior era perceber que Benjamin rejuvenescia com o passar dos anos, enquanto seus amigos idosos logo morriam.

Entre os diversos elementos diegéticos (do interior da própria narrativa ficcional) do filme O Curioso Caso de Benjamin Button, certamente o que mais fascina é a condição existencial deste protagonista que, por mais que possa parecer fantasiosa ou fabular, agrega algo de real, de verdadeiro. Se a princípio tal fenômeno nos parece tão absurdo, a experiência de Benjamin é legitimada logo no início do filme. Nesse momento, acreditamos na ideia de um tempo que retrocede, quando um personagem secundário, o Sr. Gateau (Elias Koteas), fabrica um relógio cujos ponteiros andavam ao contrário, na esperança de poder ver novamente seu filho, morto na guerra. É a partir deste preâmbulo que o espectador é convidado a vivenciar a história de Benjamin Button.

Nada mais apropriado para um longa-metragem, que não pretende ser uma adaptação fiel, mas livremente inspirado no conto do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald. No conto original, a infância de Benjamin é marcada pela vontade proibida de fumar cigarros, ler enciclopédias e conversar com gente idosa. No filme, o personagem, aos 7 anos, gosta de brincar com soldadinhos de plástico, ainda não sabe ler e quer correr com outras crianças, mas sua condição física o impede. Seu corpo é velho, mas sua mente é infantil. A mudança na trama confere maior empatia ao personagem, além da interpretação sóbria de Brad Pitt, indicado ao Globo de Ouro 2009 de melhor ator de drama. A película também recebeu indicações ao prêmio nas categorias de melhor filme dramático, roteiro, trilha sonora original, direção. Apesar de não ter conseguido ganhar nenhum, O Curioso Caso de Benjamin Button é um dos filmes mais cotados na disputa por indicações ao Oscar 2009.

Assinado por Robin Swicord – diretora de O Clube de Leitura de Jane Austen – e por Eric Roth – roteirista de Forrest Gump - O Contador de Histórias –, o roteiro de O Curioso Caso de Benjamin Button está longe de ser idêntico a do personagem imortalizado por Tom Hanks, embora muitos críticos tenham feito associações. Se Forrest Gump participa ativamente de fatos históricos relevantes, como a Guerra do Vietnã e Watergate, Benjamin Button observa passivamente poucos acontecimentos, como as conseqüências do ataque dos japoneses a Pearl Harbor e a ascensão dos Beatles. Apesar do lugar-comum de ser narrado em forma de diário – que foi parar nas mãos de Daisy Fuller (Cate Blanchett), o grande amor de Benjamin –, o filme consegue superar alguns clichês e, às vezes, seu didatismo.

Mais do que aprofundar a relação entre o personagem e a História, o cineasta David Fincher coloca em primeiro plano a presença do tempo, com todas as transformações e as marcas que ele deixa. No filme anterior de Fincher, Zodíaco, o tema principal também era o tempo, mas como uma espécie de força que conduzia os personagens à obsessão e à autodestruição. Em O Curioso Caso de Benjamin Button, o tempo é sinônimo de memórias afetivas, que possibilitam aos personagens a consciência melancólica da efemeridade da vida.

Cotação: ****

Monday, December 29, 2008

A TROCA (Changeling, de Clint Eastwood, EUA, 2008)

Complexidade na medida certa



Ao lado de atuais cineastas norte-americanos que merecem ser apreciados com atenção - como James Gray e David Fincher, só para citar alguns -, o veterano Clint Eastwood certamente é o que melhor herdou os códigos do cinema clássico norte-americano. A cada filme, torna-se mais evidente o quanto Eastwood acredita na força de seus personagens e dos dramas que inventa, bem como na maneira sutil de operar uma determinada forma de decupagem tradicional. No entanto, nenhum desses elementos consegue apagar o próprio estilo de Eastwood como cineasta, principalmente em A Troca, que acaba de entrar em cartaz em Fortaleza.

Eastwood assina a direção, a produção e a trilha sonora deste longa-metragem, que narra o drama de Christine Collins, uma mãe solteira que, na década de 1920 e 1930, sofre com o desaparecimento do filho e, logo em seguida, se vê vítima da irresponsabilidade e da negligência do Departamento de Polícia de Los Angeles na resolução do seu caso. Diante de um argumento tão banal como este - ainda mais com a marca clichê do "a true story" (uma história verídica) -, o que faz de A Troca um filme que emociona e que se diferencia de um mero melodrama de época? Com certeza, não é a interpretação de Angelina Jolie, que recebeu uma indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz pelo papel, tampouco sua chance de também ser indicada ao Oscar. Acredite: Jolie não merece todo esse crédito.

Talvez o grande mérito de A Troca seja sua inadequação a um determinado gênero. Se os mais apressados o classificam amplamente como drama, os mais cuidadosos percebem as inúmeras modulações narrativas do filme, sobretudo as transformações dos temas do roteiro. A Troca se apresenta como um típico drama familiar, logo depois, desenvolve-se como uma espécie de filme-denúncia acerca da inoperância das instituições e do peso da injustiça sobre os indivíduos, em seguida, torna-se um thriller, depois drama de tribunal, depois volta a ser melodrama... Com essas constantes variações, Eastwood faz de seu filme uma estrutura complexa, mas ao mesmo tempo enxuta naquilo que pretende obter a cada cena construída.

Em A Troca, o estilo eastwodiano é facilmente reconhecido. Temos a crítica voraz às instituições, a defesa ao cidadão comum cuja vida é destroçada pelo sistema, o lado perverso do ser humano exposto sem qualquer tipo de sensacionalismo, a possibilidade de sobrevivência e de esperança apesar da morte do outro. Eastwood demonstra mais uma vez que é o cineasta da precisão e do rigor, ao fazer cinema apenas com o que é necessário.

Cotação: ****

Thursday, December 25, 2008

MELHORES FILMES VISTOS NO CINEMA EM 2008

1) Wall-e - de Andrew Stanton



"Como todas as coisas boas da vida, este longa-metragem de animação é simples e encantador. Wall-e conseguiu agradar crianças, adultos, a crítica e o público em geral. Além de dialogar com a tradição do cinema mudo e com a literatura de ficção-científica, o filme ainda faz uma critica ao consumo e a defesa ao meio-ambiente".


2) Linha de Passe - de Walter Salles e Daniela Thomas



"Entre os filmes brasileiros que seguem a linha do realismo sociológico (como Cidade de Deus e Tropa de Elite), Linha de Passe consegue fugir do esquematismo determinista e autoritário de que 'todo pobre torna-se marginal'. Acompanhamos no filme os dramas de pessoas de baixa renda que não se submetem à criminalidade".


3) Desejo e Reparação - de Joe Wright



"O grande injustiçado do Oscar. Levou apenas o prêmio de melhor trilha sonora original. Merecia mais. Afinal de contas, Desejo e Reparação é um grande tratado sobre o olhar, o poder da imagem, o 'falseamento' (ou não) de uma narrativa. Desejo e Reparação é cinema em estado puro".


4) Paranoid Park - de Gus Van Sant



"Depois de sua excelente trilogia Gerry, Elefante e Últimos Dias, Gus Van Sant mostra mais uma vez seu frescor como cineasta contemporâneo em Paranoid Park, uma espécie de Crime e Castigo colegial. Cinema de superfície, de rostos e corpos no espaço, mas também de profundidade, como se buscasse algo além do visível".


5) Na Natureza Selvagem - de Sean Penn



"Pelo amadurecimento de Sean Penn como cineasta. Se compararmos os filmes anteriores dele (Unidos pelo Sangue, Acerto Final, A Promessa), Penn nunca demonstrou tanta sutileza poética quanto em Na Natureza Selvagem. Dá para sentir o carinho que ele tem pelos personagens e pelos espaços que constrói".


6) Jogo de Cena - de Eduardo Coutinho



"Por colocar em questão o estatuto do que conhecemos por documentário, Coutinho acabou sendo alvo de certas críticas de parte do público que se sentiu enganado pelo filme. Mas Coutinho não faz filme para enganar ninguém. Ele apenas pede que você participe de um jogo, mesmo sem compreender direito as regras. Pouco importa se é uma atriz ou alguém comum. Todos nós interpretamos nossas próprias histórias de vida".


7) Fim dos Tempos - de M. Night Shyamalan



"Apesar de Shyamalan ser aquele tipo de cineasta mais amado e odiado ao mesmo tempo, parece-me que ele mostra consistência a cada filme que realiza. Fim dos Tempos tem inclusive a vantagem de não ter a pretensão ou a arrogância de um grand finale ou de uma surpresa extraordinária a ser revelada".


8) 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias - de Cristian Mungiu



"Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, este filme romeno é constantemente acusado de ser grosseiro e apelativo. Lembro que gostei, quando assisti no cinema. Mas precisa ser revisto".


9) Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto - de Sidney Lumet



"Grande elenco - Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei -, em uma típica tragédia familiar complexa que vai e volta no tempo".


10) Onde os Fracos não tem Vez - dos Irmãos Cohen



"Filme muito ousado para o Oscar, com sua construção dramática-conceitual complexa. Um tratado sobre a personificação da violência - o matador Javier Bardem - e o mal que perdura e sobrevive a tudo".